quinta-feira, 14 de novembro de 2013



Believe It

Capítulo 23:

  Acordei com a tempestade que estava lá fora. Olhei no rádio-relógio e ainda eram 03:06. Virei para o lado e vi Rita em sua cama. O abajur do criado-mudo estava acesa e ela lia uma revista. Me levantei e andei para a janela para ver a tempestade. Ventos fortes sopravam e as árvores balançavam. Raios apareciam e trovões me assustavam. Mesmo assim, continuei olhando. Era uma coisa linda de se ver. 
  Sentei na cama de Rita e ela colocou a revista no criado-mudo. Puxou as cobertas e eu me enfiei debaixo delas, abraçando Rita e ficando no quentinho. Já era verão mas era uma noite fria em Vernicas. Os últimos meses estavam muito frios. Não falei nada e Rita também não. Apenas a presença dela me confortava, não era preciso mais nada. Eu gostaria de ser filha dela. De qualquer forma, ela era uma mãe para mim. Eu a amava e ela me amava. Ela cuidou de mim. Ela me deu carinho. Ela era minha mãe.
  Bateram na porta do quarto e corri para a minha cama, sabendo que era minha mãe. Rita se levantou e abriu a porta. Era um dos guardas. Ele entrou e fez uma reverência para mim. Fechou a porta e caminhou até minha cama.
 - O que o Munfred tá fazendo aqui, Rita? - perguntei.
 - Ele é meu namorado. Mas ele não veio por isso. Ele veio te falar uma coisa.
 - Sim, eu vim. - Sua voz era grossa e ele era um cara bonito. - Na próxima semana a rainha estará fora. Ela vai passar a semana inteira fora do reino, vai fazer uma viagem para a Ásia.
 - E...?
 - Eu acho que é a chance de a senhorita conseguir ver seu amado. Eu sei que a senhorita o ama. Rita me contou. Não deixe que o amor de vocês seja atrapalhado por ninguém. O amor é uma coisa tão linda, não deixe que estraguem isso.
 - Eu ainda não entendi... Sou lerda. - Comecei a achar que anos de estudo não funcionaram. - Como o Louis vai conseguir entrar aqui? Tem minha família e os guardas e criados fofoqueiros.
 - É aí que ele ia chegar, Kath. - disse Rita.
 - Sua mãe viajará e sua avó irá com ela. Seus outros parentes estarão na festa de casamento de Summer, representando a família, sua mãe e sua avó. Os guardas irão para protegê-los, apenas alguns ficarão no castelo. Eu serei um deles. Os outros serão meus amigos de confiança. 
 - Mas, e os criados? - perguntei pessimista.
 - Não precisa se preocupar com eles. A rainha estará fora então eles não terão que servir ninguém, já que sua criada é Rita. Se você dispensá-los, eles irão para suas casas e o castelo ficará livre para você e seu amado.
 - Mas... E se Louis não estiver disponível? - Cada vez mais pessimista.
 - Ele estará. Já o comuniquei e ele concordou em vir aqui.
 - Sério? Obrigada, Munfred! - Comecei a dar pulos no colchão e abracei Munfred e Rita. Estava tão feliz.
  Munfred saiu e voltei a olhar a chuva. Estava mais fraca e silenciosa. Eram 04:39 quando decidi deitar. Rita já havia dormido há um tempão, mas eu gostei de ficar absorta em meus pensamentos. Me deitei e continuei acordada por um tempo, lembrando de meu futuro encontro com Louis. Meus dias de chorar estariam no fim.

  Acordei 11:11 e fiz um pedido. Desejei que eu e Louis pudéssemos ser felizes juntos, sem muita interferência das pessoas. Podia parecer coisa de patricinha pensar em um final feliz, mas era isso que eu queria.
  Me levantei e tomei banho. Me vesti http://www.polyvore.com/mulher_moderna/set?id=68945313 e fiquei sentada na cama, esperando Rita chegar com o café da manhã. Meu quarto estava muito quente, o sol batia nas janelas e caminhava até metade do quarto. Abri as janelas grandes e fiquei observando o jardim dos fundos. Ninguém ia lá. O lugar mais bonito do castelo. Com plantas mortas e coisas do tipo.
  Rita entrou e colocou a bandeja na minha cama bagunçada. Dei um abraço nela e bebi o suco de abacaxi com hortelã que eu tanto amava. Não comi o pão porque no calor pão me incomoda. Nos sentamos no carpete e ficamos conversando por um bom tempo. Até que minha mãe entrou no quarto e expulsou Rita de lá. Rita saiu às pressas e minha mãe trancou a porta. Eu não havia feito nada de errado.
 - Você não aprende, não é mesmo? - disse mamãe.
 - O que eu fiz dessa vez? - perguntei com sarcasmo.
 - Quem disse que você podia abrir as janelas? Eu disse que era presa nesse quarto sem nada aberto. Nada de janelas nem portas abertas!
 - Mas tá um forno aqui!
 - Quem linguajar inapropriado para uma princesa! E não quero saber se está calor! Você vai ficar trancada para aprender a nunca me desobedecer! Feche essa janela! Agora!
 - Não. - Isso, Katherine, fique brincando com fogo!
 - Não? Como assim? Você vai me desobedecer outra vez? - Ela andou até mim e me deu um tapa no lado direito do rosto e pegou meu braço. O apertou com força e cravou suas unhas em mim. - Vá fechar as janelas!
  Me levantei e fechei as janelas. Ela saiu logo em seguida e Rita entrou. Rita cuidou de meus machucados no braço e mais chorava do que eu. Enfim mamãe saiu e Rita levou o tablet para nosso quarto. Entrei no Twitter e vi algumas coisas, mas não pude postar nada para não deixar nenhum vestígio de que tinha usado a internet. Liguei para Louis e matei um pouco as saudades.
 - Tô ansioso pra te ver, amor! - ele disse.
 - Eu também! Tô contando os dias, as horas, os minutos, tô contando tudo. Quero que seja especial.
 - Eu também. Não aguento mais ficar longe de você. Foi difícil pra mim ficar longe, e em turnê...
 - Amor, eu queria poder falar tantas coisas, mas não tenho tempo... - Ouvi um barulho vindo lá de baixo. - Amor, ouvi um barulho, deve ser minha mãe. Tenho que desligar. Beijos no seu bundão, tchau. Te amo. - Desliguei.
  Entreguei o tablet para Rita e ela saiu do quarto. Deitei na cama e peguei meu livro O Lado Bom da Vida. Um livro inspirador, mas um dos livros proibidos de Vernicas. Mas ele estava encapado com a capa de Ladrão de Almas. Ótimo jeito de enganar minha mãe. E por falar nela, entrou a "querida".
 - Hum, só queria saber se estava mesmo aqui. Lendo esse livro de novo? Não vai fazer bem para sua mente ler toda vez o mesmo livro. Bom, desde que não saia deste quarto qualquer livro está bom. Até mesmo de Sociologia.
  Ela saiu e continuei minha leitura. (...) a vida não é um filme de censura livre para fazer com que a pessoa se sinta bem. Muitas vezes a vida real acaba mal, (...). E a literatura tenta documentar essa realidade, mostrando-nos que ainda é possível suportá-la com nobreza.
  Fiquei a tarde toda lendo e terminei o livro no mesmo dia. Rita veio se deitar e me trouxe outro livro. Um Dia é um livro que eu sempre quis ler, mas que também era um os livros proibidos de Vernicas. O deixei no meu criado-mudo e me deitei de vestido mesmo. Não fiz questão de trocar de roupa, apenas tirei o tênis. Dormi rapidamente.



Believe It

Capítulo 22:

  As pessoas me olhavam confusas enquanto minha mãe se fazia de desentendida. Eu não estava tão diferente assim.
 - Quem deu permissão para essa garota subir no palanque? - gritou minha mãe para um dos seguranças.
 - Mãe! Sou eu, Katherine. Olha aqui. - Mostrei minha mancha de nascença em formato de uma fatia de pizza. - Posso ter mudado o cabelo, mas ainda sou eu.
 - Filha! - Minha mãe me abraçou bem forte e então sussurrou em meu ouvido: - Onde você estava? Idiota! Eu vou acabar com você! Apenas espere.
  Descemos do palanque e nossos súditos nos aplaudiram. Os paparazzi tiraram muitas fotos e me encheram de perguntas que não fui capaz de entender direito, então continuei subindo com minha mãe.
  Ela me arrastou pelos corredores e me levou para seu quarto. Me jogou em sua cama e abriu um armário grande, logo em seguida um pequeno dentro dele. Ela não disse uma palavra e eu também não falei nada. Já sabia o que aconteceria. Já sabia que minha punição seria dada. Apenas aceitei. Mamãe pegou uma caixa de tamanho médio e tirou a tampa, revelando algumas armas, inclusive armas de fogo. Pegou uma espécie de cinto, um pouco mais grosso, preto e vermelho. Parecia ser de couro, o que tornaria os golpes piores.
 - Consegue ver isso? - ela perguntou.
 - Sim. É meu punimento. - eu disse, sem demonstrar todo o medo que estava sentindo.
 - E você aceita bem? Parabéns, evoluiu bastante. - disse ela com desdém, batendo o cinto na mão para testar e fazendo uma careta de dor.
  Continuei sentada na cama. Ela testou o cinto mais algumas vezes e então foi ao meu lado, abriu meu vestido e me deu a primeira cintada. Doeu bastante, mas então veio outra, e mais outra, e mais  uma, até que viraram muitas e eu já não sentia mais dor. Minha pele se acostumou com a dor e não reclamei nenhuma vez. Senti as lágrimas escorrendo por meu rosto e enxuguei-as.
  Mamãe parou e guardou o cinto, a caixa e fechou os armários. Me olhou dos pés à cabeça e então se encostou na parede. Vesti meu vestido novamente e senti mais lágrimas escorrerem. Ela continuou me olhando por mais um tempo antes de falar. Sua voz estava me corroendo. Aquela maldita voz.
 - Feliz Natal, Katherine. Parabéns, filha. Você conseguiu a liberdade que queria. Mas agora chega! - ela gritou a última frase.
 - Eu só quis saber como era ser feliz...
 - Você é idiota? Qual o seu problema, vadia?! - A voz dela me irritou tanto que fui obrigada a responder.
 - Pelo que eu saiba, não sou a vadia dessa história. Não fui eu que mandei matar o pai da minha filha... - Deixei a frase no ar e saí do quarto.
  Corri para meu quarto morrendo de dores e Rita estava lá. Pedi para que ela fizesse alguns curativos em minhas costas que estavam sangrando. Troquei de roupa http://www.polyvore.com/selena/set?id=89482571 e me dirigi ao Salão Principal. As pessoas ainda estavam lá e os paparazzi também. Pelo que eu estava vendo era um evento. As mesas estavam cheias de comida e bebidas. Haviam várias pessoas lá, mas nenhuma com aparência de pobre. Todas deviam ser da alta sociedade.
  Algumas pessoas me fizeram perguntas sobre onde eu estava, o que eu havia feito, mas não respondi a nenhuma delas. Estava morrendo de dores e quase não aguentava andar. Me lembrei de Louis e me emocionei, mas não chorei. Lutei para não chorar, colocando um canapé inteiro na boca. Uma música lenta começou a tocar e as pessoas começaram a dançar. Andei pelo Salão sem me preocupar muito em esbarrar nas pessoas. Estava tudo tão diferente. Então trombei com um rapaz alto, loiro, com costas largas e ombros musculosos. O rapaz se virou e sorriu para mim. Marcs me abraçou bem apertado, me fazendo gemer de dor por causa das costas machucadas.
 - Como eu senti sua falta! - esbravejou ele, me soltando e olhando no fundo dos meus olhos. - Te machuquei?
 - Você não, mas, você sabe, já recebi parte da minha punição. - disse eu tentando não chorar de dor e lamentação.
 - Eu não entendi, como assim?
 - Vem cá. - 
  Conduzi Marcs pelo Salão e subimos as escadas. Caminhamos o longo corredor e entramos em meu quarto. Ele se sentou em minha cama e contei tudo que aconteceu no quarto da minha mãe. Contei também sobre meu pai e sobre meu namoro com Louis. Ele parecia feliz por mim. Era bom ter alguém para conversar. Ficamos boas horas conversando sobre mim e resolvi que era hora de falarmos sobre outras coisas. 
  Marcs estava no castelo porque firmou um contrato entre seu reino e o meu. Ele mal tinha atingido a maioridade e já estava tomando decisões importantes em nome de seu pai. Summer estava de casamento marcada com um príncipe de um reino asiático. Millena foi demitida porque foi pega por mamãe roubando um garfo da prataria. Bertran morreu quando rolou escada abaixo. E assim foi nossa conversa.
  Mamãe entrou no quarto e se assustou quando viu Marcs deitado ao meu lado na cama, rindo como uma criança.
 - Que pouca vergonha é essa? - gritou ela.
 - Não é pouca vergonha, rainha. - disse Marcs. - Somos apenas dois amigos conversando. Mas, se me permite, tenho que pegar um avião. - Fez uma reverência a nós duas e saiu.
  Mamãe se aproximou de mim e estava prestes a falar alguma coisa, quando Rita entrou no quarto e começou a arrumar as roupas para dormirmos. Mamãe saiu e me senti mal pelo que viria no dia seguinte. Mais coisas ruins. Me vesti http://www.polyvore.com/hora_de_dormir/set?id=84012531 e fui na cozinha beber leite. Voltei para o quarto e dormi. Dormi com vontade de não acordar nunca mais. 
  No dia seguinte, levantei e fui para o Salão das Mulheres. Minhas familiares estavam contentes em me ver, menos minha avó. Ela simplesmente me ignorou. O café da manhã foi estranho, com todos me perguntando sobre os lugares que visitei e as mudanças no cabelo. 
  Levantei e fui ao meu quarto para tomar banho, mas fui impedida por mamãe, que entrou no quarto e trancou a porta.
 - Agora, vamos continuar o que comecei ontem. - disse ela. - Se acalme - Eu estava calma - não vou te machucar mais. Só quero conversar. Por que você fez essa coisa ridícula no cabelo? Por que viajou pelo mundo? Por que me desobedeceu? Sua maldita ingrata! Eu espero que você queime no fogo do inferno por toda a eternidade! Quem manda aqui sou eu! Você não tem o direito de me desobedecer!
 - Mas, e o papai? - perguntei com ceticismo. - Você não vai falar nada sobre ter mandado matá-lo? Eu sei de tudo, encontrei com ele em uma das viagens! Você não presta! Como foi capaz de fazer uma coisa dessas?! Sua... sua... maldita! 
  Nesse momento não me aguentei e me joguei em cima dela. Minhas mãos foram direto em seu cabelo, sem me importar com a falta de respeito. Afinal, ela era minha mãe. Caímos as duas no chão e começamos a nos debater no carpete fofinho. Puxei seus cabelos e ela me deu um tapa no rosto. Arranhei sua bochecha e dei um soco em seu estômago. Levantei e saí correndo, mas ela me alcançou e me puxou de volta para o quarto. Me deu um tapa super forte que fez com que eu caísse e não tivesse mais forças para me levantar.
 - Como ousas? - Ela estava com a respiração acelerada e parecia louca com o cabelo todo bagunçado e a postura errada. - Por isso, a senhorita vai ficar de castigo até seus 18 anos. Com 18 anos a senhorita vai embora desse castelo e não voltará aqui nunca mais! Enquanto isso, fique aqui, neste aposento, trancada! E nunca mais vai sair daqui! - Ela saiu batendo os pés e trancou a porta.
  Não pude evitar as lágrimas e a raiva que me dominavam. Precisava falar com alguém. Precisava de Louis. Precisava de seu amor, seu carinho, seu corpo, seu jeito. Precisava dele!
Me joguei na cama e entrei debaixo das cobertas. Fiquei o dia todo deitada, trancada. E os dias seguintes também foram assim. Sete meses se passaram e eu ainda não tinha notícias de Louis, de nenhum dos meus amigos. Ainda estava trancada naquele quarto e ninguém (além de Rita) tinha permissão para me visitar. De vez em quando minha mãe entrava no quarto para saber se eu realmente estava lá. Já estava ficando angustiada de ficar naquele quarto. Nunca mais usei roupas de princesa, até porque não saí do quarto. Minhas refeições eram controladas e não podia mais acessar a internet. Não saí do quarto. Isso acabou comigo. O que aconteceria comigo nesses anos?